01/09/2016 0 Comments AUTHOR: Ilma Vieira Silva CATEGORIES: Jovem Tags:,

Declaração de bens de um pai

O pai moderno, muitas vezes perplexo e angustiado, passa a vida inteira correndo como um louco em busca do futuro e esquecendo-se do agora. Nessa luta, renuncia o presente. Com prazer e orgulho, a cada ano, preenche sua declaração de bens para o imposto de renda. Cada nova linha acrescida foi produto de muito trabalho. Lotes, casas, apartamentos, sítios, casa de praia, automóvel do ano – tudo isso custou dias, semanas, meses de luta. Mas ele está sedimentando o futuro de sua família. Se partir de repente, já cumpriu sua missão e não vai deixa-la desamparada.

Para ir escrevendo cada vez mais linhas na sua relação de bens, ele não se contenta com um emprego só – é preciso ter dois ou três; vender parte das férias, levar serviço para casa. É um tal de viajar, almoçar fora, fazer reuniões, preencher a agenda – afinal ele, um executivo dinâmico, não pode fraquejar.

Esse homem se esquece de que sua verdadeira declaração de bens, o valor que  efetivamente conta está em outra página do imposto de renda – naquelas modestas linhas, quase escondidas, onde se lê: relação de dependentes. São os filhos que colocou no mundo, a quem deve dedicar o melhor de seu tempo.

Os filhos novos demais não estão interessados em propriedades e no aumento da renda. Eles só querem um pai para conviver, dialogar, brincar. Os anos passam, os meninos crescem, e o pai nem percebe, porque se entregou de tal forma na construção do futuro, que não participou de suas pequenas alegrias; não os levou ou os buscou na escola; nunca foi a uma festa infantil; não teve tempo de assistir à coroação de sua filha como Rainha da Primavera. Um executivo não deve desviar sua atenção para essas bobagens. São coisas para desocupados.

Há filhos órfãos de pais vivos, porque estão “entregues” – o pai para um lado; a mãe para outro; e a família desintegrada, sem amor, sem diálogo, sem convivência.

É esta convivência que solidifica, a fraternidade entre os irmãos, abre caminho no coração, elimina problemas e resolve as coisas na base do entendimento. Há irmãos crescendo como verdadeiros estranhos, que só se encontram de passagem em casa. E para ver os pais, é quase preciso marcar hora.

Depois de uma dramática experiência pessoal e familiar vivida, a mensagem que tenho para dar é: Não há tempo melhor aplicado do que aquele destinado aos filhos.

Dos dezoito anos de casados, passei quinze absorvido por muitas tarefas, envolvido em várias ocupações e totalmente entregue a um objetivo único e prioritário: construir um  futuro para os três filhos e uma  mulher. Isso me custou longos afastamentos de casa: viagens, estágios, cursos, plantões no jornal, madrugada nos estúdios de televisão. Uma vida sempre agitada, tormentosa e apaixonante, na dedicação à profissão que foi na verdade mais importante que minha família.

Agora estou aqui com o resultado de tanto esforço: construí o futuro penosamente, e não sei mais o que fazer com ele, depois da perda de Luiz Otávio e Priscila.

De que vale tudo que juntei se esses filhos não estão mais aqui, para aproveitar isso com a gente? Se o resultado de trinta e cinco anos de trabalho fossem consumidos agora por um incêndio e, desses bens todos, não restassem mais que cinzas, isso não teria a menor importância; não ia provocar o menor abalo em nossa vida, porque a escala de valores mudou. E o dinheiro passou a ter peso mínimo em tudo.

Se o dinheiro não foi capaz de comprar a cura de um filhinho amado que se drogou e morreu; não foi capaz de evitar a fuga da minha filhinha, que saiu de casa e prostituiu-se, e dela não tenho mais notícias, para que serve? Para ser escravo dele?

Eu trocaria – explodindo de felicidade – todas as linhas de declaração de bens por duas únicas que tive de retirar da declaração de dependentes: os nomes de Luiz Otávio e de Priscila. E como doeu retirar essas linhas na declaração de 1996, ano base de 1995. Luiz Otávio morreu aos quatorze anos e Priscila fugiu um mês antes de completar quinze anos.

Hélio Fraga, jornalista

Transcrito do Informativo Escola Particular – Brasília, DF, ano I, n.7 Setembro 1997.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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