13/06/2016 0 Comments AUTHOR: Ilma Vieira Silva CATEGORIES: Idoso Tags:, , , , ,

LUTA DO LUTO – ANÁLISE PSICOLÓGICA

“Até que a morte vos separe…” Esta  frase é ouvida em todas as cerimônias de casamento.   O problema é que não se sabe até quando!  Para muitas pessoas este  “até”   é muito curto, para outras, dura vinte, trinta, quarenta, cinqüenta    e até  setenta anos.

A morte existe desde que o mundo foi criado e até hoje ninguém se acostumou com ela.  É sempre momento de alegria nascimento de uma criança, assim como o falecimento de um ser amado causa tristeza.  A morte pode ser compreendida, mas é difícil de ser aceita, porque qualquer outra perda poderá ser  reconquistada,  porém não há retorno para a perda de um ente querido, e aquele que parte deixa sempre espaços vazios que não poderão ser  preenchidos e os que ficam permanecem saudosos e tristes

 

REAÇÕES  –  A morte de um ente querido  pode fazer com que as pessoas tenham reações diferentes.  Algumas amadurecem mais como indivíduos, através do sofrimento, mais facilmente   reabilitam-se da ausência da pessoa que partiu, encarando a realidade como algo que tinham que enfrentar.  É claro que a saudade não perde seu lugar, mas a pessoa enfrenta a crise de um modo mais positivo.  Outras pessoas não conseguem superar o problema e afundam-se nele, vivendo no passado e magoando-se cada vez mais, externando seus sentimentos e emoções de forma exagerada, sem conseguir controlar-se, como se com essas atitudes o morto pudesse voltar ä vida.  Estas pessoas não vêem saídas para sua tristeza, não conseguem reconstruir suas vidas, fazendo  com que o luto se transforme em verdadeira neurose.

 

As experiências passadas vão determinar a reação do indivíduo diante de uma crise.  Se ele foi acostumado a enfrentar  conflitos e problemas, e a encará-los de frente de forma a superá-los, então, ao enfrentar novas crises, saberá ultrapassá-las.  Porém, se nunca teve oportunidade de enfrentar e solucionar problemas, porque sempre teve alguém para fazer isso por ele, terá dificuldades para encontrar soluções,  pois não amadureceu suficientemente em épocas anteriores.

 

CHOQUE/DEPRESSÃO

 

Em muitos casos, após o falecimento de entes queridos, algumas pessoas reagem como se estivessem anestesiadas, devido ao forte choque emocional.  Este choque pode durar enquanto recebem os pêsames e as condolências,  até com um sorriso nos lábios, como se estivessem muito tranqüilas.  Isto pode ser visto pelos outros como  resultado de fé, porém este estado  emocional é temporário.  Dai o organismo entra numa nova fase e cai na  realidade, podendo entrar em profunda depressão, levando a pessoa a se isolar do mundo, afastando-se de todos, buscando alívio na solidão.  Este alívio ela só encontrará com a ajuda de Deus, ou de profissionais competentes.  A depressão  não dura para sempre, mas é necessário que a enlutada  se esforce para  sair desse estado de desespero, pois a Bíblia nos diz que “o choro pode durar uma noite, mas a alegria  vem pela manhã”.  Perder alguém que se ama é sempre uma experiência dolorosa e nos leva a pensar no quanto somos impotentes diante da morte. Mas, o sofrimento faz parte da vida e  muitas vezes, através  dele, crescemos e amadurecemos como pessoas.

 

A morte surpreende as famílias, interrompendo situações estabelecidas,  quebrando elos muito fortes, e é preciso que a viúva, ou o viúvo, forme novos laços,  novos ajustamentos e faça planos para o futuro, que mantenha seu círculo de amizades, tome iniciativas e, sobretudo, mantenha sua fé em Deus, confiando nEle de todo o coração.  Assim, Ele a ajudará a transformar todos os obstáculos para que sua vida entre novamente num ritmo bem mais positivo.  As pessoas que têm uma experiência com Cristo, que depositam sua fé Naquele que pode todas as coisas, usam deste recurso para se libertarem dos problemas.

 

A situação da mulher viúva é muito delicada e difícil.  Vai haver uma nova adaptação ä vida, ä incorporação dos  novos papéis que ela terá que assumir, pois terá que se desdobrar muito por causa dos filhos que estão passando, também, pela difícil fase da aceitação da morte do pai.  Seus sentimentos estão abalados pela falta daquele que supria as necessidades   da família.

 

AS CRIANÇAS –  Algumas crianças pequenas não compreendem a morte, porque nunca tiveram contato com ela.  Infelizmente, na nossa sociedade escondem-se das crianças tais situações.  Elas não sabem como enfrentar a ausência do pai.  Faltará alimento?   Terão dinheiro para as despesas? Como ficarão agora sem o papai?  Muitas tentam descobrir de que maneira poderão ajudar nas despesas da casa.  Mesmo sem ter idade, preocupam-se em trabalhar  para ajudar a mãe.   Outras ficam  tão desestruturadas que, muitas vezes, sofrem baixa no seu rendimento escolar, pela perda do pai e pela impossibilidade de fazerem algo.  Muitas crianças  desenvolvem anorexia, que é a falta de apetite, causada por fatores emocionais, enquanto que outras podem se tornar obesas.  Filhos adultos compreendem a situação e logo descobrem uma maneira de ajudar, arranjar um emprego e reestruturar sua vida na ausência do pai.

 

Muitas vezes observam-se famílias desestruturadas por causa da ausência do pai e pela incapacidade da viúva para manter o mesmo padrão de vida que tinham antes. Em outra  famílias, apesar da perda e da saudade, os membros tornam-se mais unidos, mais dedicados uns aos outro s, e vão vencendo a crise aos poucos.  No desejo de manter a família unida, a viúva precisa se desdobrar para atender tanto as necessidades físicas quanto as psicológicas dos filhos, especial mente se são filhos pequenos, elas se desgastam e se entregam de corpo e alma à satisfação das carências das crianças.  E ela, quem vai suprir suas carências?

 

APOIO –  É nestes  momentos que, não somente a viúva, mas toda a família precisa de apoio moral e espiritual dos amigos,, da Igreja e do seu pastor.  Durante o período da enfermidade são inúmeros  os telefonemas e as visitas, que fazem muito bem à família, mas, depois de  um certo período  após o desenlace, parece que ninguém mais se lembra.  Vão rareando os  telefonemas, as visitas, e a viúva se sente mais solitária, todavia, terá que aprender a enfrentar a vida sozinha.

 

Justamente após o desenlace é que a família precisa de mais apoio para a nova vida.  Muitas viúvas se ressentem de que agora estão esquecidas.  Os casais amigos, que antes a visitavam e estavam freqüentemente juntos, agora não a procuram mais. Muitos pastores e  irmãos da igreja também se afastam e raramente  visitam a família enlutada. Parece  que isso acontece mais em grandes cidades, pois em pequenas comunidades   as  coisas se passam  de maneira diferente: há mais solidariedade  por parte dos vizinhos, pastores e Igreja.  Quem sofreu uma perda necessita conversar, chorar, recordar, extravasar seus sentimentos, precisa ter alguém ao seu lado para ouvi-la.

 

Seria bom que se formassem grupos de apoio por pessoas que tivessem passado pelo mesmo problema de perda, para trocarem  experiências e sentimentos,  e para ouvir palestras adequadas.  Rubem Olinto, no seu livro “Luto, Uma Dor Perdida no Tempo”,   fala sobre a  formação desses grupos.  Para crianças, o autor sugere grupos especiais para falar sobre a vida e a morte, e também realizar gincanas e passeios.  Ele  ainda menciona, muito apropriadamente, que vários estudos  relatam  que “resíduos de luto mal resolvido acompanham uma criança  pelo resto da vida (pág. 83).

 

SOLIDÃO –  Nesse tempo, a viúva terá que enfrentar a solidão.  Este é um forte sentimento que sobrevém à pessoa enlutada.  É uma emoção freqüente e de longa duração.  É comum encontrar-se pessoas solitárias em meio à multidão.  Na Bíblia encontramos várias situações em que servos de Deus enfrentaram a solidão..Em João 5:1-9, lemos sobre o encontro de Jesus com o paralítico no tanque de Betesda.  Em meio a tantos enfermos, aquele paralítico encontrava-se sozinho.  Quando ele diz para Jesus: “Senhor, eu não tenho ninguém que me leve às águas quando elas são  agitadas!”  Que solidão!  Esta  é  a  situação de muitas viúvas.   Mas aquele  paralítico  teve Jesus ao seu lado e foi curado.  Jesus está ao nosso  lado  para fazer-nos companhia na hora da solidão..

A Bíblia também relata que até Jesus teve momentos de solidão.  Freqüentemente   Ele “se retirava” para orar.  Certa vez, convidou seus três discípulos mais próximos para irem ao jardim de Getsêmane para orarem com Ele,  mas que decepção!  Ao voltara encontrou-os dormindo.  Que solidão!…  E pouco  tempo depois, no Calvário (Mat.26:36-46), quando clamou:  “Deus meu, Deus meu, por que me desamparaste?”, se sentiu muito só. E tudo por causa dos nossos pecados.

 

A solidão acompanha os enlutados. Ela está presente  em  algumas ocasiões  mais do quer em outras.  Por exemplo,, nas comemorações  especiais, quando o casal visitava amigos, participava junto de cultos na Igreja, ia a festas de casamentos, formatura, aniversários dos filhos, jantares, festividades de Natal, enterros, viagens, etc.  Eram ocasiões  em  que  estavam sempre juntos e agora se tornam ocasiões tristes: a solidão é sua companheira.  Muitas viúvas deixam de participar desses eventos  para não se sentirem  ainda mais solitárias no meio da multidão. É muito difícil  esquecer o ente querido, especialmente quando o casamento durou muitos anos e o relacionamento entre o casal foi saudável.  As lembranças que ficam são suaves e agradáveis e as recordações  fazem muito bem.

 

A solidão nos surpreende também quando  revemos objetos da pessoa amada, fotos, recortes de jornal, fitas de vídeo, cartas, perfumes, etc.  Estes detalhes sempre trazem recordações que estavam  arquivadas há muito tempo, mas que podem fazer renascer a solidão.

 

Os filhos sempre ajudam a superar a crise.  A segurança ou insegurança emocional deles vai depender da mãe.  Muitas mães  se preocupam tanto consigo mesmas e se fecham tanto na sua tristeza que se esquecem dos filhos.  Ou, por outro lado,  se apegam tanto aos filhos, especialmente quando são adultos, que passam a depender totalmente deles, criando problemas para os filhos e seus familiares..

 

ADAPTAÇÀO – Lindemann (citado por Rubem Olinto) menciona elementos fundamentais na superação do luto.  A pessoa enlutada está tentando superar a crise,  e é necessário muito trabalho e envolvimento para se ajustar no tempo e no espaço:  “reajustar-se a um ambiente do qual a pessoa morta não fará mais parte, e formar novos relacionamentos”.

 

A adaptação à  nova situação vai depender de cada pessoa que sofreu a perda.  Será  de grande ajuda a fé e a confiança em Deus na formação de novas atitudes, mudanças, valores e conceitos que a ajudarão  a superar a saudade  e a tristeza.  Agora é tempo de reorganizar a vida sem a presença do companheiro que partiu, formular novos objetivos   para a vida, tomar iniciativas e decisões, tornar-se independente.

 

Para a mulher,  torna-se mais difícil a situação, porque a mulher brasileira foi criada e  educada desde o começo da vida para ser dependente: primeiro do pai, depois do marido.  Os  movimentos feministas    trouxeram outra dimensão ao papel da mulher na  vida diária, mas até hoje muitas estão  pouco preparadas para assumir negócios, dirigir empresas e assumir o papel do falecido..Este  momento de crise pode ser uma oportunidade para que a mulher se torne mais independente.  O que não adianta é ficar parada, chorando e se lamentando diante do que ocorreu.  Ë preciso agir, fazer alguma coisa, levantar a cabeça  e rogar a Deus o seu auxílio e seguir o que Ele traçou para sua vida, orando como o salmista no Salmo 51:10 – “Cria em mim, ó Deus, um coração puro  e renova em mim um espírito inabalável”, e comece a agir, renovando sua vida, reformulando objetivos dentro da vontade de Deus.

 

O QUE PODE FAZER –  Existe muita coisa prática para fazer:  criar o hábito de boas leituras, boa música, trabalhos manuais, visitar pessoas, famílias, doentes em hospitais que nunca recebem visitas, orfanatos e creches, levando roupas, balas, brinquedos para crianças que nunca tiveram pai, copiar versículos bíblicos em pequenos cartões e durante a caminhada matinal  entregá-los às pessoas que encontrar,  sorrir para as pessoas, não custa nada e alegra a quem recebe o sorriso., cultivar plantinhas em casa, fazer  novas amizades  e cultivar as antigas, comunicar-se com outras pessoas, cuidar mais de si mesma, ir ao cabeleireiro, manicure; aprender  a nadar, se ainda não sabe, ajudar outras pessoas; manter uma lista de nomes e endereços de obreiros de Missões, com  as datas de aniversário para o envio de mensagens ou cartas, etc.  Praticando algumas destas atividades  você estará cuidando da saúde física e emocional, preenchendo seu tempo e fazendo algo para muitos que necessitam de sua ajuda.

 

É bom descobrir atividades onde possa empregar seu tempo.  Na sua Igreja existe muita coisa para fazer .  Dedique-se ao trabalho do senhor, envolva-se na obra de Deus.  Não se fixe na tristeza e na saudade.  Sinta ao seu lado  sempre aquele Consolador – o Espírito Santo, que Jesus prometeu e enviou para nós.  Se temos o Espírito Santo de Deus em nossas vidas, Ele nos consolará.  Ele vive dentro de nós, ajudando-nos a sair de nossas fraquezas, oferecendo-nos conforto e consolo nas horas mais difíceis e ajudando-nos a ter  uma vida abundante na obra do Senhor.

 

A morte nos separou, mas a vida continua…

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